quinta-feira, 16 de junho de 2011

P01.3—Sequência




Seja o que for o que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos...

...o que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez...

Roland Barthes

in A Câmera Clara


Tendo a fotografia como meio, então como produzir dois fotogramas complementares?

Tentando aprofundar o meu conhecimento e procurar respostas numa linguagem verdadeiramente do meio fotográfico, procurei discutir esta proposta com alguém do próprio meio. Foi no seguimento dessa discussão que surgiu o nome de Roland Barthes.

Se, segundo o seu estudo, a fotografia nada é mais para além de um veículo, um meio que nos reporta a um momento efémero eternizado num fotograma, então como representaria todas as emoções de um momento cru da fotografia?

Procurei a resposta na exploração do espaço expositivo para que estes dois momentos pudessem transportar o espectador para um ambiente específico. Registei assim dois momentos simultâneos do processo de cozinhar a fotografia, o momento em que ela ainda não existe como resultado físico.

Acima do observador encontra-se assim o registo da luz vermelha do estúdio e por baixo a tina de revelador contendo um pedaço de papel fotográfico ainda branco, tentando remeter o observador para um universo de apenas alguns segundos que separam o nada do tudo.

P01.2—Associação

P01.1—Imagem Fotográfica



CRU

Após uma tentativa falhada de abordar esta proposta com uma perspectiva de linguagem generalista, acabei por procurar uma resposta afecta a um meio específico, a fotografia na sua vertente analógica.

Realizei uma série de registos procurando encontrar uma representação do estado cru da fotografia. Uma representação despojada de acção e que contivesse a matéria prima no seu estado puro, cru.

A solução acabou por ser o registo de um rolo fotográfico novo, acabado de sair da caixa.

Para maximizar o efeito deste registo optei por captar a imagem do rolo de perfil, tentando demonstrar uma falsa imparcialidade, isto é, evitando atribuir uma outra dinâmica que um registo macro com uma perspectiva acentuada pudesse conferir à imagem. Dinâmica essa que recorreria a valores específicos de um trabalho de fotográfico que já estaria para além do estado cru.

P00—Auto-Representação




AR = ???


É-me bastante custoso manter uma linha racional de pensamento não divagante quando este acto se destina a um esforço consciente de procura de traços de personalidade ou características da minha pessoa. Possivelmente a anterior frase é aquela que melhor transmite o meu universo mental, a confusão.

Para a resolução desta proposta foi de certa forma um reforço positivo o carácter de urgência pedido para a execução. De forma a tentar fazer um bipass ao meu consciente, tentei resolver este trabalho cingindo-me às ferramentas que encontrasse no meu “saco do dia”.

(uma bobine de linha branca de algodão + uma agulha + uma tesoura + um pau de giz branco + ???)

Resultado de um processo de exploração recente do desenho ilustrativo, ganhei um especial interesse por suportes físicos não usuais. Este artefacto de experiências anteriores levou-me a uma primeira tentativa de resolução conjugando a linha de algodão com um saco de lixo preto...experiência essa que acabou como começou, isto é, no saco do lixo (Não é verdade! Está guardada, mas a omissão deste facto propicia um momento de humor à narrativa.)


Então como resolver este imbróglio? Nomeadamente o “+ ???” ?

Em retrospectiva podemos analisar a função representativa do raciocínio seguido e perceber que a solução era bastante simples:

AR = saco – bobine + agulha + tesoura + giz + ???

Hmmmm... ao que parece não faltava nada. O problema acabou por ser a intenção de acrescentar ao desnecessário.

AR = bobine + agulha + tesoura + giz + saco

Assim que o saco passou a fazer parte da própria função, não só a resposta se transformou num objecto prático, como encontrou uma maneira de transmitir a realidade da minha pessoa.

Alguém que necessita de sacos para conter pequenas parcelas da sua imensa confusão.


domingo, 12 de junho de 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011